Shreek, você dá um banho no Patinho Feio!
Se tem um personagem infantil que tem a auto-estima no lugar é o Shreek. Verde, desajeitado, feio ( para os padrões de beleza ocidental ) e desprovido de noções mínimas de boas maneiras ( arrota e solta puns com uma naturalidade impressionante ), Shreek surge no imaginário infantil como o avesso do Patinho Feio.
Enquanto o Patinho Feio tem vergonha de si mesmo pelo fato das pessoas o acharem “feio”, Shreek tem um comportamento contrário: ele ama a sua “feiura”. E seu amor próprio é baseado na consciência de que ele não é pior nem melhor do que ninguém, é apenas diferente. O mesmo não acontece, no entanto, com o Patinho Feio. Pra ele, a opinião dos outros é fundamental pra torna-lo feliz ou não. Então, se o mundo exterior o considera feio, ele aceita esse “achismo do mundo exterior” e afoga-se na auto-piedade. . Shreek é feliz porque o seu mundo interior é muito maior que o mundo exterior que o cerca.
Mas a história do Patinho Feio, ao contrário do que muitos pensam, não tem um final feliz. No final da história, o Patinho se torna um lindo cisne e enfim consegue se aceitar. E ele se aceita porque agora todos o admiram, todos o aprovam. Que triste final de história. O Patinho Feio continuou refém da aprovação do mundo exterior e do conceito materialista de beleza que valoriza o que se vê por fora, e nunca o que se é por por dentro. Mas o final feliz do Shreek de fato é um final bem feliz. Em Shreek 2, o nosso ogro acaba se transformando num lindo príncipe encantado, todo cheiroso, repleto de boas maneiras e de cabelos loiros esvoaçantes. Tudo estava “perfeito” pra muita gente, menos para o Shreek. Aquele não era ele. Agora todos o amavam, todos o achavam perfeito como um príncipe encantado. Mas quem disse que ele precisava ser loiro pra ser feliz? Quem disse que ele precisava ser cheiroso pra ser feliz? A auto-aceitação do Shreek não dependia da aceitação dos outros, porque ele se amava do jeito que ele era e pronto. No final de Shreek 2, por opção própria, ele volta a ser o velho ogro desajeitado e mau cheiroso de sempre. Mesmo não tendo mais a mesma popularidade que teria se continuasse sendo o belo príncipe, Sheek estava mais feliz do que nunca. Ele não trocaria aquela silhueta verde e desajeitada por nada nesse mundo. Esse sim é um verdadeiro final feliz. Um final verde, mal cheiroso e sem boas maneiras: mas muito feliz.
Por Glenio Cabral / gclsilva@hotmail.com
